Esperança e vida
A esperança é a última que morre. Quem nunca ouviu esse clichê tão surrado, repetido “ad nausea” milhões de vezes, mundo afora, nas mais variadas circunstâncias e ocasiões? Vou mais longe: quem nunca o utilizou ao se referir a sonhos considerados impossíveis (que, na maioria das vezes, de fato são) que, no íntimo, acredite que venham, de alguma forma, a se concretizar? Todavia (e creio que isso seja ponto pacífico), ninguém pode apenas se limitar a esperar que as coisas aconteçam, sem agir em sentido prático para a sua concretização.
É preciso empenho, paciência, sabedoria e muita determinação para atingir objetivos, desde que estes, logicamente, sejam factíveis. E, mesmo assim, jamais podemos ter certeza absoluta do êxito. Até porque, o sucesso, seja naquilo que for, não depende apenas de nós (pelo menos na maioria dos casos). Envolve muitas outras pessoas e, sobretudo, determinadas circunstâncias, que nos sejam favoráveis. Ademais, não há colheita sem semeadura, é óbvio (embora muitos ajam como se houvesse essa miraculosa possibilidade).
Mesmo se plantarmos, estaremos sujeitos a uma série de fatores que podem redundar ou não
Contudo, se tivermos plantado, teremos alguma esperança, mesmo que mínima, de que possamos colher alguma coisa, mesmo que não na quantidade e sem a qualidade que pretendíamos. Quem não plantar, no entanto... Este sim terá uma certeza que será absoluta: a de que não colherá coisíssima alguma. Na vida também é assim.
A maioria, porém, tende a esperar, esperar, e esperar, mesmo que não tenha movido um só dedo para concretizar o que tanto deseja e que sequer saiba se o que espera lhe será um bem ou um mal. Não raro lhe é nocivo. Mas e daí? É seu sonho, seu ideal, sua obsessão até.
É fartamente conhecida a composição de Chico Buarque de Holanda (grande sucesso popular, se não me falha a memória, dos anos 70), intitulada “Pedro pedreiro”, e que diz, em determinado trecho: “Pedro pedreiro espera o Carnaval./E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês./Esperando, esperando, esperando, esperando o sol,/esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem,/esperando a festa, esperando a sorte/e a mulher de Pedro está esperando um filho pra esperar também”. E não é assim que as coisas acontecem? Claro que sim! Todos somos, em certa medida, como o Pedro pedreiro.
Graham Greene constata a respeito, no livro “O cônsul honorário”: “Nada é inelutável. A vida tem surpresas. A vida é absurda. Porque é absurda, sempre há esperança”. E há mesmo. Só que ela pode se transformar em desespero, em decepção, em mágoa, em uma enorme frustração, o que é bastante comum.
Muito já se escreveu, e outro tanto poderia ser escrito, sobre esse comportamento, caracterizado pela inação, e que, por essa razão, é sempre estéril. Jamais resulta
Todavia, um dos textos mais pitorescos a respeito da esperança foi escrito por Mário Quintana. Trata-se de afirmação inteligente e instigante por ser, sobretudo, lógica. E de uma lógica irrefutável. O poeta afirma, em determinado trecho: “O ditado diz que, enquanto há vida, há esperança. Eu digo que enquanto há esperança, há vida. Porque nunca foi encontrado, em nenhuma parte do mundo, num bolso de um suicida, um bilhete de loteria que fosse correr no dia seguinte. Ele esperaria, ao menos, para comprar o revólver de ouro”.

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