25.9.06

Arte compartilhada

O diretor de cinema norte-americano Paul Schrader – que tem em seu currículo, entre tantos outros, filmes como “Auto Focus” (2002), “Temporada de caça” (1997) e “A marca da pantera” – disse, certa feita, em entrevista, uma frase que, embora óbvia, nunca se apagou da minha mente. Declarou: “A arte é sempre maior que a vida”. Claro que tinha razão. As obras que produzirmos, desde que originais e de qualidade, nos sobrevivem, por décadas, por séculos, por milênios, quem sabe até para sempre (embora esse “sempre” não deixe de ser ambíguo).
Isto ocorre, como garantiu o psicanalista Carl Gustav Jung, por uma causa fundamental: Porque “o artista é um homem coletivo que exprime a alma inconsciente e ativa da humanidade”. É, pois, o que sabe expressar (e, de fato, expressa), com o signo próprio e característico da sua arte (pintura, música, escultura, dança, literatura, não importa), as angústias, perplexidades, sonhos, misérias e grandezas de um povo; da pessoa comum e não raro inculta, que sente tudo isso, com grande intensidade, mas que não tem como concretizar esses sentimentos em imagens, sons, movimentos ou palavras.
Tenho o privilégio, porém, de privar da amizade de uma pessoa que é perita, em sua modalidade artística, em desvendar esses desvãos escuros e sombrios da alma humana e os revelar plenamente à luz. Trata-se do artista plástico José Luís Piassa, que em julho passado foi, finalmente, reconhecido pela Câmara Municipal de Campinas, que lhe outorgou, com absoluta justiça, a Medalha Carlos Gomes, por sua contribuição para as artes e a cultura da cidade.
Fomos colegas de trabalho no jornal Correio Popular, posto que em funções diferentes. Mas cruzávamo-nos, amiúde, e não tardou para que firmássemos sólida e produtiva amizade. Mantivemos longas e agradáveis conversas sobre nossas respectivas visões de mundo e nossos projetos artísticos. Nunca vi ninguém com tamanho entusiasmo pelo que faz como esse criador sensível e originalíssimo, talentoso e idealista.
Foi com satisfação redobrada, pois, que fiquei sabendo do sucesso dos seus totens “Pergaminho Filosófico-Cultural”, espalhados pelo Brasil afora, embora pouco divulgados pelas mídias tradicionais. Há cerca de vinte anos, quando eles ainda não passavam de meros projetos, Piassa já falava, entusiasmado, com os olhos brilhando, a respeito dessa sua idéia. Na oportunidade, embora nunca lhe tivesse dito, duvidei que sua intenção de levar o melhor das artes para os grotões deste país-continente fosse prosperar. E não é que meu amigo artista conseguiu!
Claro que voltarei outras vezes ao tema, para explicar no que consistem esses “Pergaminhos Filosófico-Culturais”. Cabe, aqui, um parêntese para explicar o que são totens. Trata-se de uma forma de manifestação que remonta ao princípio da civilização. São símbolos associados, em geral, a uma linhagem familiar, uma tribo, um grupo, uma empresa, ou até a times de futebol. Referem-se, via de regra, a um espírito ancestral. Não se prendem a formas e podem aparecer como uma pedra, ou como uma planta, ou como uma força ou até como o vento ou o trovão.
Os totens de Piassa são compostos por colagens, grafismo, textura e pintura. São interativos e contam com a participação direta de membros de determinadas comunidades na sua composição. É o próprio artista que explica como eles são elaborados: “É permitido livre acesso às crianças, aos jovens e adultos, que interagem na obra, de forma a obter um resultado plástico”, diz. E acrescenta: “Outro aspecto importante, que começa a aparecer, se refere à relação entre pintura, colagem, objeto, instalação e intervenção. Tudo leva a uma noção de ambiente, de criação de uma atmosfera onde a vida, a mais comum possível, possa ser vivida e experimentada graficamente, seja na garatuja da base, seja nas intervenções em relevo no corpo que compõe o totem. São campos de energia cromática, de formas, que se propagam e que nos convidam a uma leitura táctil. É um mundo de cores para ser sentido na pele”.
Piassa conta, nesse seu original e bem-sucedido empreendimento, com o indispensável apoio do secretário de Programas e Projetos Culturais, Célio Turino, e do próprio ministro da Cultura, Gilberto Gil, que prestigiaram a inauguração de vários dos totens em Pontos de Cultura espalhados pelo País afora. O meu amigo artista, portanto, mais do que nunca, é, simultaneamente, veículo e agente da expressão da alma inconsciente e ativa da humanidade, ou de, pelo menos, parcela expressiva dela.

18.9.06

A esteira rolante do tempo

O tempo pode ser comparado a uma esteira rolante, dessas que existem nas linhas de montagem das modernas indústrias. Rola, sem cessar, a uma velocidade sempre uniforme, e leva consigo nossas ilusões, sonhos e ideais (que têm que ser constantemente renovados para sobreviver), nossas alegrias e tristezas, nossos sucessos e fracassos e nosso entusiasmo ou nossa frustração. E um dia, quando menos esperamos...zás! Nos leva também!

Os problemas que aguardam a humanidade, num futuro que pode ser próximo ou remoto, ninguém logicamente sabe quando (e isto se, num assomo de loucura, algum imbecil não apertar o fatídico botão que deflagre o holocausto nuclear) são, no mínimo, apavorantes.

A população do Planeta cresce numa proporção estonteante, o que reduz os espaços, há não muito fartos e faz com que “encolham” de forma perigosa. A capacidade de produção de alimentos, para sustentar esse crescente aumento populacional, já está quase no limite máximo. Corre-se o risco real de faltar água potável para todos. Rios, mares, lagos e fontes estão cada vez mais poluídos. O ar torna-se, a cada dia que passa, cada vez mais irrespirável. A temperatura média do Planeta cresce de ano para ano.

Pela primeira vez na História, o ser humano detém em suas mãos (nada confiáveis) o poder de destruir o mundo num piscar de olhos. Doenças antigas são erradicadas, mas outras, muito mais letais e misteriosas (como o Ebola, a Aids e a gripe aviária, por exemplo), surgem, como que do nada. É mister que não se esqueça que a gripe espanhola, cuja origem e natureza não foram bem explicadas até hoje, dizimou 18 milhões de pessoas ao redor do Planeta.

Certamente, o engenho dos pesquisadores vai encontrar solução para esses males. Isso ocorrerá, todavia, em decorrência do esforço concentrado de milhares de indivíduos e não, como os néscios supõem, por causa da passagem do tempo, porque “o futuro vai chegar”. Ele chega e se vai, desde o mais remoto passado (o da origem do universo) a cada segundo que passa, mesmo que não venhamos a nos dar conta.

O tempo, pois, reitero, é como uma esteira rolante diante da qual estamos, num determinado ponto da sua passagem. A parte que já passou por nós de forma alguma vai voltar. O que está à frente, o futuro, a cada piscar de olhos ou bater de asas de um beija-flor se transforma em passado. E o que passa velozmente diante de nós, com tamanha rapidez que sequer o percebemos, é o presente, fugaz, invisível e imensamente volátil. E isto enquanto pudermos permanecer diante da esteira porque, num determinado prazo, que não temos a mínima possibilidade de conhecer qual é, teremos de sair definitivamente dali.

Não há, portanto, momentos inúteis, vazios, ociosos, cuja perda possamos recuperar. Todos eles, sem exceção, são irrecuperáveis. Nós é que quase nunca sabemos como equacionar o tempo. Preenchemo-lo, via de regra, com banalidades, fatuidades e tolices. Jogamos fora, na maior ingenuidade, esse que é o nosso maior capital.

Há pessoas que parecem que já nasceram cansadas ou entediadas. Do que mais elas falam e o que mais buscam são o descanso e o lazer. Bem dosados, ambos têm, evidentemente, seu espaço. Mas é indispensável que jamais se erre na medida. O poeta dinamarquês Piet Hein, no poema “Cura para a exaustão”, aborda com propriedade a questão, ao revelar: “Algumas vezes, exausto/da labuta costumeira,/quisera poder dormir/uma eternidade inteira./Mas então penso melhor,/esqueço luta e canseira:/muito breve farei isso,/quer eu queira quer não queira”.

A época em que vivemos é caracterizada, sobretudo, pela pressa. Quase nunca, todavia, esse afã é o de produzir soluções para problemas existenciais, individuais e coletivos, que se arrastam há séculos, quando não milênios. Enquanto os avanços tecnológicos viajam em jatos várias vezes mais velozes do que o som, os humanísticos caminham a passos de tartaruga, e das mais lerdas, e isto quando não retrocedem.

Não conseguimos nos situar no tempo. Daí tamanha carga de angústia, tanto nossa, quanto dos que nos rodeiam. Daí tamanho egoísmo e desamor. Daí os casulos de solidão em que estamos encerrados, paradoxalmente, numa época em que o mundo tem excesso de pessoas, muito mais do que seria desejável. O homem deste século XXI, no afã de concretizar o seu sonho (que, convenhamos, nada faz de prático para tornar concreto), só fabrica pesadelos e fica numa espécie de vácuo do tempo. Abomina, com facilidade, o passado, recentíssimo, perdendo uma carga inestimável de experiências, que faz questão de enterrar como velharias. E não consegue nunca, evidentemente, chegar ao futuro, onde, certamente, o espera a grande e implacável niveladora dos homens: a morte!!! Pura insensatez!!!

11.9.06

Carta ao homem

O caminho do sucesso é estreito e acidentado e quando as pessoas conseguem obtê-lo, às vezes se decepcionam por não se sentirem felizes com os resultados. Aliás, trata-se de um conceito bastante subjetivo, este que se refere ao êxito, com significados diferentes de um indivíduo para outro. É algo que não se obtém por acaso. Precisa ser cuidadosamente planejado e incessantemente buscado, sem esmorecimento ou desânimo. Além disso, não é um certificado de garantia de que quem o obtenha será feliz.

O doutor Lair Ribeiro define com precisão: “Sucesso é conseguir o que você quer. Felicidade é querer o que você conseguiu”. Muitos optam pelo primeiro e envelhecem desiludidos e amargos, abreviando suas vidas. Outros, apostam no segundo e terminam seus dias na Terra dando preciosas lições de sabedoria e de amor ao próximo.

Viver é, além de uma maravilhosa oportunidade, uma inigualável aventura e um enorme privilégio, sobretudo uma arte. O escritor João Guimarães Rosa coloca na boca de um de seus tantos personagens a seguinte observação: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim. Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Este é o diferencial entre os que conseguem chegar a uma avançada idade com lucidez, produtividade e, sobretudo, alegria e os que envelhecem melancolicamente, se auto-desrespeitando e sendo alvos apenas da indiferença ou, quando muito, piedade alheias.

A artista plástica Diana Santos, entre seus inúmeros trabalhos, pintou um quadro comovedor, que intitulou “O Velho”. A figura do ancião retratado na tela passa uma magia, uma ternura, uma doçura incomparáveis. Outro dia, ela revelou que esse homem frágil e ao mesmo tempo forte, existe. Não se trata de alguma pessoa de sua família, nem de alguém que tenha tido todas as facilidades na vida para chegar à idade que chegou. Ela própria dá a identificação: “Seu nome é Domingos. Sua profissão, vendedor de vassouras. Sua moradia, de favor na casa de alguém. Seu objetivo, amar e viver, pelo homem e com o homem, por Deus e com Deus”.

Essa humilde figura, revestida de tamanha grandeza, fez com que a artista se sentisse insatisfeita somente em retratar o seu porte. A linguagem dos traços, das tintas, do jogo de luz e sombras, foi insuficiente para Diana expressar a impressão que o senhor Domingos lhe passou, a despeito da excelência do quadro. Por isso, recorreu à poesia, a esta “Carta ao homem e à vida”: “Ele usa sua sabedoria, com sabedoria./Usa sua idade com inocência./A curvatura de suas costas mostra sua experiência./Não enxerga, mas vê como se vê através da água./Seus olhos azuis brilham e amam./A dor de sua vida encara como se fosse um carinho,/um presente de Deus./Sua roupa velha e surrada serve somente/para cobrir e aquecer seu corpo cansado, sem cobrir/sua beleza e riqueza./Sorri e conversa lhe dando amor, vida, alegria,/força, fé, amizade, carinho e felicidade./Seus 80 anos ou mais trabalham com a alegria e a força/que necessita para viver”.

Está aí um homem sábio que soube ser feliz com quase nada. Superou deficiências, equacionou ambições, racionalizou metas e encontrou um objetivo simples, um significado amplo para a vida. Poucos conseguem isso. Quem o diz é um dos homens mais sábios do nosso tempo, Albert Einstein, que sentenciou: “É estranha a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porque, embora às vezes possamos prever algum objetivo”.

Felizes das pessoas que o prevêem! O cidadão Domingos, 80 anos, cujo sobrenome desconheço, descobriu o óbvio, que cientistas, filósofos, artistas e muitos gênios jamais atinaram. Ou seja, que o maior objetivo da vida é amar e viver...Simples assim.

4.9.06

Ato de amor

As obras duradouras, que permanecem anos, séculos, quiçá milênios após a nossa morte e que beneficiam gerações, não importa seu tamanho ou natureza, são atos de amor. Não esse estereotipado, mutilado e distorcido, como é entendido por grande parte das pessoas, ou seja, a mera transação de corpos, almas e interesses, sem nenhum comprometimento profundo e genuíno. Este tipo de sentimento conduz, somente, à frustração, ao desespero e à solidão.

O amor a que me refiro é aquele desprendido, abnegado, altruísta, que move céus e terras para proteger e beneficiar seus destinatários, sem esperar agradecimentos, vantagens e sequer reciprocidade. Por esta emoção, sim, vale a pena viver e, se preciso, vale a pena morrer.

Quem não ama o que faz, jamais conseguirá fazer nada bem feito. Não terá vontade, coragem e disposição de colocar em sua obra corpo, coração e mente. Ou seja, tudo aquilo que é. Estará em atividade errada e esse fato resultará, fatalmente, em frustração, desgosto e fracasso. Temos que amar, sobretudo, a humanidade, a despeito de suas fraquezas, aberrações, patifarias e contradições. Ou seja, devemos agir como recomendam lúcidos pregadores: “abominar o pecado, mas ter compaixão pelo pecador”.

Aquele que não ama os semelhantes e, pior do que isso, que os abomina, jamais dedicará a vida na elaboração de uma obra cujos resultados não irá aproveitar. Nunca podemos perder de vista o fato de que somos efêmeros e que desconhecemos nosso tempo de vida. Quanto menos esperarmos, zás, alguma fatalidade (acidente, doença ou agressão), pode nos atingir e pôr fim à nossa aventura no mundo. E mortos, claro, de nada nos valerão nossos bens ou nossas virtudes ou nossas aptidões. Tudo o que fazemos, portanto, mesmo que não venhamos a nos dar conta, é para usufruto alheio.

Todos temos condições de alcançar nossos objetivos (desde que factíveis, claro), seja qual for a nossa competência, o nosso grau de instrução ou a nossa posição social. Podemos ser vencedores, na atividade que escolhermos, desde que tenhamos talento para ela, nos comprometamos com a mesma e nos empenhemos de verdade para a exercer com o máximo de dedicação. E em que consistiria essa vitória? Para alguns, seria a acumulação de bens. Tolice, claro. Dessas bugigangas, que tanto valorizamos, temos posse apenas transitória, enquanto vivermos. Tão logo dermos nosso derradeiro suspiro...não mais serão nossas.

Vencer na vida, então, consistiria em conquistar prestígio, poder e influência? Quem tiver isso como objetivo terá, certamente, imensas frustrações. Pode até conseguir esse status por algum tempo. Mas quando o castelo de cartas ruir...

O reverendo Norman Vincent Peale dá sua “receita” para uma vida produtiva, equilibrada e feliz: “Quando dizemos que o entusiasmo é o poder que soluciona problemas, queremos dizer que é o próprio Deus quem nos dá a coragem, a habilidade e a fé que necessitamos. Ame as pessoas, ame os céus sob os quais você vive, ame a beleza, ame a Deus. A pessoa que ama – e crê – possui a alegria e a centelha que encherão sua vida de significação”.

Nós não nos conhecemos de verdade. Não temos noção exata, e sequer aproximada, da nossa força, do nosso talento e do nosso potencial. A maioria das pessoas nem tenta chegar ao auto-conhecimento, talvez por medo do que possa descobrir. Embora negue enfaticamente, refugia-se na morna rotina do dia-a-dia, por anos a fio, com medo de se expor às descobertas, às experiências e ao amor. E, portanto, à vida. Vegetam, não vivem.

Ao mínimo fracasso, à menor frustração, essas pessoas entregam-se a um inócuo choramingar, a um exercício inútil e covarde de auto-piedade. No entanto, há um mundo a ser conquistado. Para isso, porém, o medo de se expor tem que ser, necessariamente, deixado de lado. Objetivos claros e definidos precisam ser traçados e seguidos rigorosamente. O resto...

Bem, o resto é colocar no empreendimento tudo de si. Aliar ação à emoção, técnica ao sentimento, conhecimento ao amor pelo que se faz. Há tempos, ouvi de alguém uma citação, cujo autor desconheço, e que nunca mais me saiu do pensamento. Diz: “Quando nascemos, todos ao nosso redor riem e apenas nós choramos. Vivamos uma vida de tal sorte que, ao morrermos, todos chorem nossa partida e somente nós possamos sorrir, com a certeza do dever cumprido”. Isto é o que entendo como colocar amor em todos nossos atos. É viver com alegria e entusiasmo. Ou, simplesmente, é viver!