30.8.06

Momentos de felicidade

A capacidade de ter (e de expressar) gratidão é uma das características das pessoas felizes. Elas nunca se consideram credoras da ajuda e da consideração dos que as cercam. E sabem ser gratas aos parentes, pelo carinho; aos cônjuges, pelo amor; e aos amigos, pela amizade manifestada. Victor Hugo constatou, em um de seus livros, que “os infelizes são ingratos”. E arremata: “a ingratidão faz parte da infelicidade deles”.

Temos tantos e tão variados motivos de gratidão bastando, para identificá-los, olharmos atentamente ao nosso redor. Devemos ser gratos a Deus, pela oportunidade da vida; aos nossos pais, pelos desvelos na nossa criação e pelos princípios que nos transmitiram, e à natureza, por nos proporcionar todos os recursos que asseguram nossa sobrevivência. Agindo assim, já teremos dado um grande passo para sermos felizes. Afinal, a felicidade não se acha por aí, mas se conquista, com sensibilidade e sabedoria. E com reconhecimento das coisas boas que nos acontecem e com a conseqüente gratidão, por termos esse privilégio.

Um dos maiores pecados que uma pessoa pode cometer, se não o maior de todos, é o de não ser feliz. É o de alimentar rancores, inveja, cobiça e egoísmo, em detrimento dos sentimentos nobres, das emoções sadias e dos atos de grandeza. A felicidade, ao contrário do que muitos pensam, não consiste na posse de bens materiais e nem na companhia de pessoas que os sirvam e bajulem. Estes até podem contribuir para que sejamos felizes, mas, sozinhos, não nos proporcionam essa desejada bem-aventurança. A felicidade não é nada concreto, visível ou palpável, mas um conceito, uma postura, um comportamento.

Há pessoas que a deixam de usufruir, por não a saberem sequer identificar, quanto mais valorizar o que de bom a vida lhes proporciona. Contam, por exemplo, com uma família unida e amorosa; são cercadas de afeto de múltiplos amigos por todos os lados, mas não sabem dar valor a esse magno privilégio, alheias ao fato de que a maioria não conta com essa bênção. Apostam na infelicidade e findam por, de fato, serem infelizes. Devemos ser pródigos em agradecimentos e parcimoniosos em reclamações. Caso contrário...Seremos rematados tolos de chutar nossa felicidade para um lugar em que jamais a conseguiremos alcançar.

Ninguém, em lugar algum, é feliz o tempo todo. Isso não existe. Sempre haverá uma preocupação, uma angústia, um contratempo, um desgosto qualquer, pequeno ou grande, para nos atormentar. Isso, contudo, não pode influir em nosso humor, não pelo menos por muito tempo. A felicidade é constituída de “momentos”, mais ou menos duradouros, de acordo com nossas ações e, também, da nossa percepção. Um deles, por exemplo, é quando passamos por um desses campinhos improvisados de futebol do bairro e uma bola sobra, redondinha, pererecando, para nós. Mesmo engravatados, com a pasta 007 à mão e os sapatos de cromo alemão tolhendo os movimentos, conseguimos dominá-la, fazer duas ou três embaixadas sem que ela nos escape ou caia no chão, e endereçá-la, certeiramente, de volta à molecada, sob aplausos admirados (ou mesmo galhofeiros, não importa) dos meninos. Nesses instantes, nos sentimos, secretamente, o próprio Ronaldinho Gaúcho a entortar os zagueiros adversários numa final da Copa da Uefa.

Outro momento de felicidade (pelo menos para mim) é quando passo o dia com meu neto e retorno, sem vergonha ou sem censura, à infância, revivendo, nele, os inocentes sonhos infantis que um dia acalentei. Outro, é quando de manhã, aos primeiros raios de sol, sigo em direção da padaria, para comprar leite e pão, com passo lento e preguiçoso, cumprimentando, à esquerda e à direita, vizinhos, conhecidos, amigos ou, principalmente, estranhos e recebo, em retribuição, um sorriso. Outro, ainda, é quando me dou conta de que praticamente cumpri com todas as obrigações que a vida me impôs, de que criei (e bem) meus quatro filhos, mas que ainda tenho saúde e disposição para usufruir as coisas boas que há no mundo. E há milhares e milhares de outros momentos, tantos que até me fogem da memória, em que sou grato por tudo o que tenho e pelo que sou, e em que estou em paz comigo mesmo.

Um dos desafios mais árduos e, no entanto, mais compensadores, é o de aprender a lidar com frustrações de toda a sorte em nosso cotidiano e evitar que elas se transformem em crônicos aborrecimentos. Para o bem da nossa saúde física e mental, e para o bem-estar dos que nos cercam e que conosco convivem, devemos manter sempre constante o nosso bom-humor, sem permitir que qualquer incidente, seja de que tamanho ou natureza for, o comprometa e arruíne. Devemos ter em mente a sábia observação do filósofo Ralph Waldo Emerson: “Para cada minuto que você se aborrece perde sessenta segundos de felicidade”. Não parece, mas se trata de perda irreparável. Há pessoas que perdem não apenas um minuto, mas horas sem fim, dias, meses, anos, quando não a vida toda, acalentando mágoas, chateações e desejos de vingança, abdicando da possibilidade de serem felizes. Vale a pena abrir mão de tanto por tão pouco? Claro que não!

Há um mundo a ser conquistado, que desafia o nosso talento e a nossa competência. Para isso, porém, o medo de se expor tem que ser, necessariamente, deixado de lado. Objetivos claros e definidos precisam ser traçados (e seguidos rigorosamente). O resto... Bem, o resto é colocarmos no empreendimento tudo de nós. É aliar ação à emoção, técnica ao sentimento, conhecimento ao amor pelo que se faz.

Há tempos, ouvi, de alguém, uma citação, cujo autor desconheço, e que nunca mais me saiu do pensamento, que diz: “Quando nascemos, todos ao nosso redor riem e apenas nós choramos. Vivamos uma vida de tal sorte que, ao morrermos, todos chorem nossa partida e somente nós possamos sorrir, com a certeza do dever cumprido”. Isto é o que entendo por “ser feliz”. O resto? Bem, o resto.não conta. Isto sim é viver com alegria e entusiasmo. Ou, simplesmente, é viver!

21.8.06

Esperança e vida

A esperança é a última que morre. Quem nunca ouviu esse clichê tão surrado, repetido “ad nausea” milhões de vezes, mundo afora, nas mais variadas circunstâncias e ocasiões? Vou mais longe: quem nunca o utilizou ao se referir a sonhos considerados impossíveis (que, na maioria das vezes, de fato são) que, no íntimo, acredite que venham, de alguma forma, a se concretizar? Todavia (e creio que isso seja ponto pacífico), ninguém pode apenas se limitar a esperar que as coisas aconteçam, sem agir em sentido prático para a sua concretização.

É preciso empenho, paciência, sabedoria e muita determinação para atingir objetivos, desde que estes, logicamente, sejam factíveis. E, mesmo assim, jamais podemos ter certeza absoluta do êxito. Até porque, o sucesso, seja naquilo que for, não depende apenas de nós (pelo menos na maioria dos casos). Envolve muitas outras pessoas e, sobretudo, determinadas circunstâncias, que nos sejam favoráveis. Ademais, não há colheita sem semeadura, é óbvio (embora muitos ajam como se houvesse essa miraculosa possibilidade).

Mesmo se plantarmos, estaremos sujeitos a uma série de fatores que podem redundar ou não em sucesso. Plantando, por exemplo, o terreno escolhido tem que ser fértil. Pode, porém, ser estéril e, por isso, não produzir coisa alguma. Se não for inadequado no que se refere à fertilidade, é o clima que, muitas vezes, tende a não ajudar. Pode ocorrer, por exemplo, excesso (ou falta) de chuva, ou calor em demasia, ou geada, ou chuva de granizo, ou outro acidente climático qualquer, arruinando, dessa maneira, todos os nossos esforços. Ou, ainda, a semente utilizada pode ser ruim e sequer germinar. Ou pragas podem ocorrer (à nossa revelia, claro), tornando o nosso empenho inútil e vão. São muitos, como se vê, os fatores que ameaçam fazer da colheita uma enorme frustração.

Contudo, se tivermos plantado, teremos alguma esperança, mesmo que mínima, de que possamos colher alguma coisa, mesmo que não na quantidade e sem a qualidade que pretendíamos. Quem não plantar, no entanto... Este sim terá uma certeza que será absoluta: a de que não colherá coisíssima alguma. Na vida também é assim.

A maioria, porém, tende a esperar, esperar, e esperar, mesmo que não tenha movido um só dedo para concretizar o que tanto deseja e que sequer saiba se o que espera lhe será um bem ou um mal. Não raro lhe é nocivo. Mas e daí? É seu sonho, seu ideal, sua obsessão até.

É fartamente conhecida a composição de Chico Buarque de Holanda (grande sucesso popular, se não me falha a memória, dos anos 70), intitulada “Pedro pedreiro”, e que diz, em determinado trecho: “Pedro pedreiro espera o Carnaval./E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês./Esperando, esperando, esperando, esperando o sol,/esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem,/esperando a festa, esperando a sorte/e a mulher de Pedro está esperando um filho pra esperar também”. E não é assim que as coisas acontecem? Claro que sim! Todos somos, em certa medida, como o Pedro pedreiro.

Graham Greene constata a respeito, no livro “O cônsul honorário”: “Nada é inelutável. A vida tem surpresas. A vida é absurda. Porque é absurda, sempre há esperança”. E há mesmo. Só que ela pode se transformar em desespero, em decepção, em mágoa, em uma enorme frustração, o que é bastante comum.

Muito já se escreveu, e outro tanto poderia ser escrito, sobre esse comportamento, caracterizado pela inação, e que, por essa razão, é sempre estéril. Jamais resulta em frutos. Afinal, como diz Geraldo Vandré, em sua tão conhecida canção, que inclusive foi bandeira de luta de toda uma geração que se opunha à ditadura militar no Brasil naqueles que ficaram conhecidos como os “anos de chumbo”: “esperar não é fazer./Quem sabe faz a hora/não espera acontecer”.

Todavia, um dos textos mais pitorescos a respeito da esperança foi escrito por Mário Quintana. Trata-se de afirmação inteligente e instigante por ser, sobretudo, lógica. E de uma lógica irrefutável. O poeta afirma, em determinado trecho: “O ditado diz que, enquanto há vida, há esperança. Eu digo que enquanto há esperança, há vida. Porque nunca foi encontrado, em nenhuma parte do mundo, num bolso de um suicida, um bilhete de loteria que fosse correr no dia seguinte. Ele esperaria, ao menos, para comprar o revólver de ouro”.

Há como refutar tamanha lógica? Claro que não! A esperança, obviamente, está necessariamente num tempo futuro. Não há, é evidente, como esperar que nos aconteça o que quer que seja num tempo que já passou. Por isso, não cansamos de fantasiar, mesmo que não venhamos a nos dar conta, um período promissor, além do instante presente, em que as coisas nos serão sumamente favoráveis (no mínimo melhores do que atualmente). Em que as circunstâncias atuarão a nosso favor, as peças se encaixarão por si sós, à nossa revelia, e seremos amados, bem-sucedidos e felizes para todo o sempre. Mas a vida não é assim.

É lícito, é válido e até é necessário que tenhamos esperanças. Contudo, estas devem sempre vir acompanhadas de ações, para que não se tornem estéreis, fantasiosas, inúteis e não se transformem em fontes inesgotáveis de mágoas e de frustrações. Afinal, nosso futuro individual (e também da espécie) será, exatamente, aquele que construirmos com nosso esforço, talento e persistência (“com uma ajudazinha providencial do acaso, claro”, eu aduziria, sem pestanejar).

14.8.06

Arte da dúvida

A educação é o único caminho para a correção de graves distorções de comportamento, geradoras de violência, tensões, guerras, injustiças de toda a sorte, desigualdades sociais etc., que transformam a vida cotidiana em permanente sobressalto e inibem nossas melhores potencialidades. Essa afirmação é pacífica e consensual. Não há quem não concorde com ela, seja político, educador, jornalista, economista, antropólogo, filósofo etc.

Candidatos de todos os partidos, das mais variadas ideologias, que postulam os mais diversos cargos do Legislativo e do Executivo, dão ao tema absoluta prioridade, pelo menos nominal, em seus discursos de palanque, embora depois de eleitos pouco ou nada façam de efetivo para universalizar esse direito fundamental de qualquer pessoa. E quando fazem qualquer coisa, incorrem num erro essencial. Ou seja, confundem educação com mera alfabetização, adestramento, instrução. Não se dão, sequer, ao trabalho de consultar um dicionário qualquer para conhecer sua real significação, natureza e abrangência.

Tenho apontado, insistido, e reiterado, vezes sem conta, sobre as implicações negativas que esse erro implica. Educação, de acordo com mestre Aurélio, é o “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano; civilidade; polidez”. Deve ter, portanto, não apenas um único agente, no caso o professor, mas vários outros, como os pais, os sacerdotes, os jornalistas, os escritores etc.etc.etc. É um processo contínuo, permanente, ininterrupto, que começa logo após o nascimento e não se encerra (como equivocadamente alguns pensam), com a mera colação de grau, com a obtenção de variados diplomas, das diversas fases de ensino, mas apenas com a nossa morte.

Para o filósofo norte-americano Will Durant, que registrou sua constatação no livro “Filosofia da Vida”, (um clássico do gênero), educação é o “simples progresso da arte da dúvida”. Essa, pelo menos, é sua gênese, que remonta ao nosso primitivo ancestral, tão logo tomou consciência da própria existência e do universo que o rodeava.

As dúvidas que o assaltavam, o levavam a experimentações, a indagações, a constatações, a novas perquirições, formando, dessa maneira, um imenso círculo-vicioso, que realimentava continuamente o processo. Ou seja, cada descoberta conduzia a uma nova dúvida, que por sua vez levava aquele homem primitivo a novas indagações e experiências e, assim, sucessivamente. Dessa forma nasceram a linguagem, os costumes, a escrita, a moral, as leis, a cultura, as artes, a filosofia e todo o conhecimento que integra o patrimônio da humanidade.

Escrevi, recentemente, sobre o assunto, ao abordar a interminável crise que assola o País e concluí que parte considerável dela se devia a um sistema educacional deficiente, que peca, principalmente, em sua filosofia e em seus objetivos. E indaguei: “Para o quê, por exemplo, educamos nossa juventude? Para a mera conquista desse conceito vago, chamado sucesso? Para que os educandos ganhem bastante dinheiro nas profissões que escolherem e consumam o máximo que puderem, sem reflexão ou pudor? Para a mera formação de mão-de-obra especializada para o sistema produtivo? Ou para a realização de valores e de ideais que devem ser permanentes, como igualdade, justiça, solidariedade, cooperação etc.etc.etc?”. Seguramente, para esta última opção que coloquei, são raras as pessoas e entidades que estão educando (e se educando) nos dias que correm.

Peço licença ao paciente leitor para citar um trecho do livro “Filosofia da Vida”, em que Will Durant apresenta uma das melhores definições que já li sobre esse conceito tão mal entendido, embora tão essencial (individual e coletivamente): “Educação não significa tirar diplomas de perícia em comércio, em mineração, em botânica, em jornalismo, ou epistemologia; significa, através da absorção da herança moral, intelectual e estética da raça humana, alcançarmos o controle tanto de nós mesmos como do mundo exterior; significa escolhermos o melhor como o associado do nosso corpo e do nosso espírito; significa aprendermos a adicionar a cortesia à cultura, a sabedoria ao conhecimento e a indulgência à compreensão. Quando produzirão nossos colégios homens assim?”.

A indagação de Will Durant, há tempos, é a minha também. E estendo-a um pouco além: Quando os pais, os professores, os líderes religiosos, os intelectuais, os filósofos, os jornalistas etc., enfim, a sociedade, produzirão homens assim?. Sim, quando?

Estas reflexões ficariam incompletas sem a devida contextualização. Para tanto, recorro a outra citação (e que me perdoem os meus críticos, que condenam esse meu procedimento, de recorrer, quando necessário, às luzes de pessoas muito mais sábias e competentes do que eu), desta vez do educador Paulo Freire, que constatou, em seu livro “Pedagogia da Indignação” (Editora Unesp): “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Mas, aduzo e reitero: educação considerada em seu real significado e não, meramente, alfabetização, instrução e/ou adestramento. Voltemos, pois, a exercer plenamente a arte da dúvida dos primórdios da civilização!!!

8.8.06

Paciência e preguiça

A paciência, virtude de pessoas muito especiais, atributo dos santos, é, muitas vezes, confundida com preguiça. Uma caracteriza-se por saber esperar, tanto para agir, quanto para colher os frutos dessa ação. Outra é a inação, a espera que os outros façam por nós o que deveria ser da nossa competência. É o não fazer. Para entendermos as vantagens de sermos pacientes, basta observar a natureza. Tudo nela tem o seu tempo certo: o de arar, o de semear, o de impedir que as ervas daninhas sufoquem as sementes e o de colher.

E o suceder das estações? Nunca o verão vem antes do inverno. Ou a primavera antecede o outono. Há um ciclo ordenado na natureza. Tempo certo para tudo. No caso do plantio, qualquer tentativa de pular uma das etapas pode arruinar toda uma lavoura e pôr a perder o trabalho despendido. O mesmo ocorre na vida. O apressadinho corre o risco de ficar sem colheita.

O raciocínio é válido em todos os empreendimentos: na profissão, nos relacionamentos entre pessoas e, mormente, nas artes. Há exercício maior de paciência do que o de um escultor? Da pedra bruta (ou do metal), à obra acabada, há todo um processo de desbastar, burilar e acertar detalhes. Há que se trabalhar, diligentemente, compenetradamente, pacientemente. Há que se confiar que no final desse esforço, da matéria disforme vai surgir uma escultura.

O escritor, igualmente, tem que ser paciente. E o artista plástico, o músico, o ator, etc... Ao contrário da preguiça, a paciência é irmã da constância, da persistência, do agir na hora certa. Um bebê, para nascer perfeito, precisa passar por uma gestação de nove meses. É inútil os pais se impacientarem e tentarem abreviar o processo.

Conheci pessoas extraordinárias nesse aspecto. Uma foi minha professora primária, dona Esther Freeman. Tratava-se de uma mestra abnegada, disposta a repetir os conceitos que queria transmitir aos alunos dez, vinte, mil vezes se fosse necessário. Insistia o quanto fosse preciso para aclarar as lições, de forma a que sentisse que todos, mas todos mesmo, haviam entendido o que se propunha a ensinar.

Para não prejudicar os meninos com percepção mais rápida, abria mão de partes da sua folga, para aulas de recuperação aos que estivessem em dificuldades. E jamais ouvi dona Esther dizer qualquer palavra mais áspera, que denotasse irritação, ou impaciência, até mesmo para os preguiçosos, os malandros, os que claramente não manifestavam nenhuma vontade de aprender.

Maravilhosa mestra que, além de sedimentar em minha mente conceitos básicos, que me permitiram um fácil aprendizado na seqüência dos meus estudos, me ensinou o valor da perseverança e a importância da paciência. Hoje, amadurecido, penso, agradecido, na professorinha primária que me ajudou a ser homem. Valorizo sua abnegação, sabedoria e, sobretudo, amor.

Lembro-me dela ao ler a citação de Jean-Jacques Rousseau, que ela sempre nos transmitia, embora com outras palavras, mais acessíveis para nossas mentes infantis: "A paciência é amarga, mas seus frutos são doces". É essa virtude que impede que desanimemos, quando fazemos tudo certo em determinada atividade e os resultados tardam a aparecer.

Tive amigos que eram exemplos de paciência. Perseguiam seus objetivos como leões, com uma garra invejável. Faziam o que tinham de fazer, por mais enfadonhas e árduas que fossem essas tarefas, com o espírito de Jó. Não reclamavam, não desanimavam, não se entregavam à inação. Esgotada a ação, esperavam quanto fosse necessário. Em alguns casos, a espera limitava-se a alguns dias. Em outros, chegava a anos. Mas mantinham-se tranqüilos, cientes de que tinham feito o quer era preciso fazer. Não conheço um só deles que tenha deixado de alcançar seu objetivo.

No outro extremo, convivi com pessoas brilhantes, mas sem nenhum espírito de luta. Indivíduos cujos prognósticos de sucesso na vida eram unânimes. Mas esperavam que esse êxito viesse através de magia ou caísse do céu. Ou que a colheita ocorresse no dia seguinte ao da semeadura.

Hoje, encontro-os em estado melancólico: envelhecidos, amargurados, alguns até viciados em álcool. Os primeiros, eram pacientes. Os segundos, preguiçosos. Paul Verlaine tem um poema elucidativo a respeito, que diz em determinado trecho: "Paciência, paciência,/paciência no céu azul,/cada átomo de silêncio/é a chance de um fruto maduro!". E não é?!

Jornalista e escritor

Pedro J. Bondaczuk
Blog "O Escrevinhador"