31.10.06

Alegria de escrever

O computador, em certo sentido, tem servido para aproximar pessoas, que de outra forma jamais teriam a oportunidade de se relacionar. Não são raros, por exemplo, os chamados “amores virtuais”, embora alguns desemboquem, às vezes, em tremendos equívocos e não raro até em crimes, como o recente caso de sedução de uma garota norte-americana de 12 anos, por parte de um fuzileiro naval de 31, que redundou na fuga de casa da iludida menininha. Essa, porém, é uma exceção. Pilantras existem em todo o lugar, e se utilizam de todos os meios para praticar suas pilantragens, e não somente do computador. Não é o veículo, nesses casos, evidentemente, que deve ser condenado.

Gosto de escrever. Aprecio as amizades, desde que sinceras. E valorizo a “epistolografia”, ou seja, a troca de correspondência, mesmo que seja com pessoas que não conheço pessoalmente e que, dada a distância que nos separa, dificilmente conseguirei conhecer. Quando dependia apenas dos Correios, um pouco por preguiça, um pouco por economia (ou pãodurismo), minha troca de cartas era um tanto restrita. Limitava-me a me corresponder com parentes, ou com quem conhecia há anos e que as circunstâncias da vida haviam separado.

Com o advento dos e-mails, contudo, isso já não acontece. Sou redator compulsivo de mensagens eletrônicas. Claro, elas são enviadas apenas a quem as queira receber, a quem deseje saber de mim, das minhas idéias, dos meus gostos, dos meus desgostos e até das minhas idiossincrasias. E, creia-me, esclarecido leitor, há muita gente (felizmente) que quer. Mantenho ativíssima correspondência, com dezenas de fiéis amigos virtuais, com os quais troco, há já bom tempo, informações, confidências e, sobretudo, “causos”, notadamente os engraçados. E eles filtram os artigos e crônicas, que encaminho aos jornais e sites da internet que os divulgam.

Concordo com Celso Furtado, que no Tomo I do seu livro “Obra Autobiográfica” (em cinco volumes), constata: “Rir deve ser uma forma sutil de reconciliar-se consigo mesmo, de assumir uma superioridade momentânea que nos alivia e revigora”. E é mesmo. A vida já tem tragédias demais, e dores em profusão, para que fiquemos remoendo picuinhas, aquelas pequenas coisas que nos incomodam e que, em vez de as remediarmos (e se possível, as eliminarmos), ficamos cultivando indefinidamente, de forma até maníaca, embora raramente nos damos conta disso. E não importa se esses conflitos são reais ou imaginários (a maioria cai nesta última classificação). Esse procedimento, contudo, é doentio. É neurótico, É auto-destrutivo.

Comunicar-se é fundamental. E, com amigos virtuais, a comunicação se torna mais livre, mais solta, mais espontânea e mais natural. Por que? Por não haver a interferência da questão subjetiva da aparência, que tanto pode nos levar a paixões fulminantes, quanto nos conduzir a antipatias profundas e gratuitas (e à primeira vista) por alguém de quem nada sabemos, e que mal acabamos de encontrar.

Trata-se de um contato apenas de intelectos. Ou seja, do que há de mais nobre e sofisticado nos seres humanos, que dessa forma exercitam o grande diferencial que o homem tem em relação aos demais animais: a inteligência e a capacidade de comunicar pensamentos, sentimentos e desejos.

Albert Einstein, no livro “Como Vejo o Mundo”, escreveu: “O que sei e o que penso, eu o devo ao homem. E para comunicá-los utilizo a linguagem criada pelo homem”. É o meu caso. Gosto de abrir o meu coração com franqueza e de ler, com complacência, e não raro com compaixão, mesmo opiniões que me sejam desfavoráveis, ou com as quais não compactue. E, salvo quando se trata de alguma mensagem chula, ou de alguma dessas brincadeiras estúpidas e de péssimo gosto que determinados desocupados costumam fazer, nunca deleto as mensagens recebidas. Arquivo-as, criteriosamente, com a data e o horário do recebimento, preservando-as para a posteridade. Esses e-mails, aparentemente fúteis e inocentes, incorporam-se, a partir do momento em que caem na minha caixa postal, ao meu acervo de experiências. E para sempre. .

Inutilidade? Bobagem? Perda de tempo? Quem sabe?! Certamente seria esta a classificação dada à correspondência virtual que sustento pelos derrotistas, pelos amargurados, pelos frustrados, pelos carentes de inteligência, enfim, por aqueles que estão sempre de mal com a vida e com o mundo, ou pelos que se auto-rotulam de “objetivos”, mas que os designo com uma expressão emprestada do poeta Affonso Romano de Sant’Ana: “idiotas da objetividade”. Porque, como assegura o mestre Roque Schneider: “Viver é comunicar-se. Nossa felicidade, nossa alegria de viver e nossa realização humana dependem fundamentalmente da nossa capacidade de comunicação”. E não dependem?

26.10.06

Gigantes da comunicação

"A História é uma sucessão de mudanças efêmeras, enquanto os valores eternos se perpetuam fora da História, são imutáveis e não precisam de memória". Estas palavras são do escritor checo Milan Kundera, no romance "O Livro do Riso e do Esquecimento". O homem não se conforma com sua mortalidade e busca, através do volátil instrumento que denomina de "poder", preservar algo que o lembre num futuro distante, através de obras e ações (boas ou más). Jamais saberá se logrou seu objetivo. A morte não deixa. E a maioria nunca consegue o objetivo de permanecer na memória dos povos.
Outros, perpetuam-se em decorrência da sua crueldade, da sua loucura, da sua sede de sangue ou da sua ganância desmedida. São os casos dos Calígulas, dos Neros, dos Átilas, dos Alaricos, dos Gensericos, dos Gengis Khans, dos Hitlers etc. etc.etc.
A História (da qual, atualmente, o jornalismo é o registro, no momento em que os fatos acontecem) quase nunca faz justiça aos que merecem, pela postura que assumem, pelos valores que defendem, por sua inteligência e pela força do seu caráter, em suas páginas, quase sempre banais. O que realmente importa na vida dos povos não ganha espaço em seus episódios. Ainda assim, os que defendem os valores eternos e imutáveis, os que vivem e morrem por eles e os propagam com a força do exemplo, sobrevivem ao tempo e ao esquecimento.
Estes conquistam espaço no coração, e na mente, dos homens, na sucessão de gerações. Tornam-se sagas, lendas, mitos. São os casos de dois contemporâneos que nunca se conheceram, com origens, idéias, crenças e procedimentos absolutamente diferentes, mas com um elo comum: o poder das palavras que utilizavam como únicas armas. São dois gigantes da comunicação em todos os tempos.
Referimo-nos ao poeta grego Homero, autor das epopéias "Ilíada" e "Odisséia" (o “jornalista” daqueles tempos em que sequer o alfabeto havia sido inventado) e do profeta e juiz judeu Elias, cujo procedimento foi revestido de tamanha retidão, que "subiu aos céus numa carruagem de fogo" e jamais conheceu a morte, conforme relato bíblico. Há certas coincidências que comprovam a afirmação de que "não há nada de novo debaixo do sol".
Pode parecer aos desavisados que estou fugindo do tema a que me propus a abordar no Comunique-se, ou seja, o jornalismo em seus mais diversos ângulos, aspectos e situações. Todavia, não fugi. Trata-se de um tema original, dos primórdios da comunicação. É uma espécie de proto-história dessa atividade fundamental e indispensável à civilização.
Na minha juventude – fato que eu atribuía à minha inexperiência e aos lapsos existentes em minha cultura – sempre relacionei estes dois homens, Homero e Elias, mesmo sabendo que ambos nunca se encontraram e pouco ou nada tinham em comum. Confesso que nunca me dei conta que eram contemporâneos. Aparentemente, um nada teve a ver com o outro. Onde, pois, a relação? Sempre busquei esse elo, em vão. Mas pensava, nem sei porque, talvez intuitivamente, nos dois juntos.
Recentemente, lendo o excelente livro do jornalista e escritor sérvio Milorad Pavitch, "O Dicionário de Kazar", dei com um trecho absolutamente inesperado. O autor coloca na boca de um de seus personagens (históricos), o monge grego Metódio, santo da igreja ortodoxa russa – o sacerdote, ao lado de São Cirilo, foi um dos responsáveis pela civilização e cristianização da Rússia, dotando-a do alfabeto que utiliza até hoje, o cirílico – uma reflexão instigante. Relaciona os dois grandes homens, que jamais se conheceram, mas se tornaram imortais.
Diz o texto: "Pensava em como Homero tivera mares e cidades no seu imenso império poético sem desconfiar que em uma dessas cidades, em Sidon, vivia o profeta Elias, que se tornaria cidadão de um outro império poético – o Livro Santo – tão vasto, eterno e poderoso quanto o de Homero. E Metódio perguntava-se, finalmente, se esses dois contemporâneos tinham-se encontrado em algum momento, Homero e o profeta Elias, o tichbita da Galaad – ambos imortais, ambos armados apenas com a palavra, um cego e voltado para o passado, outro vidente obcecado pelo futuro, um grego que cantara a água e o fogo melhor do que todos os poetas, outro, um judeu que premiava com a água e punia com o fogo usando a sua capa como ponte".
Está aí o elo entre ambos: a preocupação com os extremos. Um descreveu, com seus versos geniais, a saga de deuses e heróis no convívio com os humanos. Outro, conduziu os homens do seu tempo e lugar aos pés do único Deus. Um relatou os passeios de Apolo em sua carruagem de fogo pelos caminhos do céu (o que foi transmitido, de boca em boca, de geração para geração, pelos gregos). Outro, foi arrebatado e conduzido a um lugar que desafia a imaginação das pessoas, muito além da Terra e do Sistema Solar.
Não foi a História, porém, que perpetuou estes dois gigantes do gênero humano: foi a sua grandeza. A conclusão destas reflexões só poderia, mesmo, ser a de Pavitch, neste magnífico trecho do seu livro: "Nunca duas coisas tão grandes estiveram tão próximas uma da outra". Nunca mesmo! E, no entanto, jamais se encontraram...

Jornalista e escritor

19.10.06

No princípio era o verbo...

O meu mundo é o das palavras. Pesquiso-as, sorvo-as, bebo-as, uso-as, faço delas minha voz, minha vez, minha forma de ser e de dizer presente diante dos meus pares. São meu instrumental, meu ar, minha luz intelectual, o alimento do meu espírito, a matéria-prima dos meus sonhos, dos meus versos, das minhas elucubrações. São a minha forma de ganhar o pão sagrado e indispensável de cada dia. São meu credo, meu objetivo, minha alegria e minha preocupação. Desde que surgiu o primeiro ser inteligente no mundo, vivemos por palavras, lutamos por palavras, morremos por palavras.
Os grandes líderes da espécie humana, os guardiões do sagrado ou do profano; os mestres sublimes como Cristo, Buda, Maomé, Lincoln, Gandhi; ou os verdugos do gênero humano, como Alexandre, Júlio César, Átila, Napoleão ou Hitler; os poetas e os profetas; os filósofos e os feiticeiros; os disseminadores das ciências e os arautos do obscurantismo fizeram delas o seu instrumental de luz ou de trevas, de liberdade ou de opressão, de inteligência ou de ignorância. de grandeza ou de miséria.
Nunca vou me cansar de lê-las, de estudá-las, de aprendê-las, de dissecá-las, de entendê-las, de utilizá-las para dar corpo aos meus sonhos. E como são caprichosas! Como são mutantes, volúveis, instáveis, sensíveis! Pablo Neruda lembrou, em um magistral poema: "Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que lhe obedeceu./Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes./São antiqüíssimas e recentíssimas./Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada..."
Diz-se que o homem foi feito "à imagem e semelhança de Deus". Esta parecença, porém, estes sutis traços semelhantes, essa identidade que nos torna "filhos" do Criador do Universo, não estão no físico, no tamanho, no peso, na altura, na beleza, na glória ou na resistência. O homem é pequeno, é frágil, é feio, é miserável e é fraco. A "semelhança" reside na possibilidade mágica, fantástica, miraculosa de se comunicar através de signos coerentes e inteligíveis para todos. Nessa magia, nesse encantamento, nesse milagre que é a palavra. Porquanto, "no princípio era o verbo...", que sempre pré-existiu e continuará existindo quando (ou se) já não mais houver matéria, energia, cosmo, espaço, vazio...
O professor norte-americano Stephen Greenblatt lembra que "nossas palavras estão cheias de vestígios que sequer compreendemos completamente quando falamos, de vozes que existiram no passado e silenciaram, estão mortas. Nossas vidas estão cheias das presenças fantasmagóricas de nossos ancestrais, de nossos pais, de nossos avós, das figuras que nos tocam e em relação às quais tentamos nos situar". Sinto que a única chance que tenho para que, com a minha morte (fatalidade impossível de evitar) não desapareçam todos os vestígios de que existi, amei, odiei, trabalhei, sofri, fui feliz, acertei, errei e aspirei à imortalidade, é a palavra.
Mas essa essência da sabedoria universal requer talento no trato. Exige que quem dela se utilize – quer no relacionamento corriqueiro do cotidiano, quer na nobreza do raciocínio – o faça com competência, com atenção, com carinho. Mark Twain alertou que "palavras são como granadas. Quando usadas inadequadamente, explodem". Seu uso desastrado propicia desentendimentos, conflitos, separações, ódios, incompreensões, guerras e mortes. Frustram, humilham, aborrecem, desanimam, matam.
O poeta Fagundes Varela considera-a a "mais forte das armas, a mais firme, a mais certeira", que provoca os maiores estragos na alma humana. Daí as noites insones e a faina incansável dos dias para entendê-las, dominá-las, absorvê-las, aprender a manejá-las com cuidado, com amor, com competência, para construir, para consolar, para engrandecer, para solidarizar, para defender os indefesos, para condenar as injustiças, para reivindicar direitos.
A tarefa é superior às minhas forças e os resultados são incertos. Faço parte dessa confraria dos sonhadores, desses criadores de castelos imaginários e de mundos inexistentes, conhecidos como "escritores". Por isso, como Guilhaume Apollinaire, rogo às gerações futuras, ao que daqui a dez, quinze, vinte, cem anos ou mais eventualmente lerem estas linhas: "Piedade para nós, que exploramos as fronteiras do irreal!!!"

9.10.06

Fascínio pelos labirintos

A vaidade é uma das características, um dos mais visíveis e notáveis defeitos (ou seria virtude?), das pessoas criativas, notadamente dos escritores, e mais em especial ainda, dos poetas. Claro que há exceções, como, aliás, em tudo na vida. Neste caso, porém, prevalece a regra. Alguns chegam a levar essa peculiaridade ao grau superlativo, ao da soberba, da arrogância e da petulância. Felizmente, para eles, não é o que fica a seu respeito para a posteridade, na história da literatura, quando morrem. Permanece a sua obra. E, claro, somente quando esta é de qualidade.

A vaidade dos escritores, esclareça-se, não se refere ao seu aspecto físico (sua eventual beleza, elegância ou charme) e nem à sua riqueza (de raríssimos), força ou coragem. Esses são aspectos que, via de regra, não têm a mínima importância para esses artesãos do verbo, que transpiram criatividade por todos os poros. O que os deixa vaidosos é a sua visão de raio-x da vida, é o talento que têm de enxergar o que realmente importa, de tudo o que nos rodeia, e exatamente onde ninguém enxerga: no óbvio.

O poeta é, sobretudo, um descomplicador, um faiscador de pepitas da beleza, meticulosamente escondidas sob a ganga impura do cascalho inútil. E o que é verdadeiramente belo, por estranha ironia, costuma ser, sempre, de uma simplicidade franciscana. Raros escritores têm a coragem de vir a público e confessar que sofreram qualquer espécie de influência de outros, como se isso se constituísse em alguma mancha, em algum delito, em fatal demérito. Claro que não é.

Poucos, no entanto, em especial os mais eruditos, podem afirmar, sem que se sintam mal por dizerem uma inverdade, que não foram influenciados em nada pela obra de Jorge Luís Borges. Em especial, quando se trata da literatura latino-americana, que da primeira metade do século passado para cá, experimentou rara explosão de criatividade, para assombro de culturas mais antigas, notadamente a européia, que não acreditavam que a jovem civilização do Novo Mundo pudesse produzir obras tão marcantes, densas, originais e consistentes.

Claro que não vou mencionar autores em cujos estilos e temas é patente a influência borgiana. E por que não o faço? Simples! Por dois motivos. Primeiro, por levar em conta o aspecto vaidade, que mencionei. Não quero melindrar ninguém. E, segundo, por não pretender polemizar com quem quer que seja. Limito-me, pois, a chamar a atenção do leitor para esse aspecto. Certamente, ele saberá identificar por si só onde está essa influência.

De minha parte – embora me considere poeta de terceiro escalão – não tenho o mínimo pudor ou constrangimento de declarar que fui e sou influenciado, e muito, por Jorge Luís Borges, principalmente na maneira de encarar a vida e nos aspectos que mais me motivam a escrever. Como ele, por exemplo (ou em decorrência dele), o tempo e os labirintos são dois temas recorrentes em minha prosa e, sobretudo, na minha poesia.

Essa vertente de inspiração foi apenas uma, das tantas, que o escritor argentino me suscitou. Li relativamente pouco do que ele escreveu. Dos 41 livros que publicou, tenho, se tanto, uns 15, mas os considerados principais. Quanto ao tempo, a obra borgiana apenas complementou a impressão que me foi deixada no espírito pela leitura dos seis volumes do “Recherche du temp perdu”, de Marcel Proust. Já os labirintos, ainda me causam um fascínio indescritível, embora tenha utilizado essa imagem em poucas das minhas produções.

Claro que nossas concepções do tema são diferentes. À visão original de Borges, agreguei a minha experiência pessoal e a minha cultura (ambas, evidentemente, muitos furos inferiores às do escritor argentino). Com o toque da minha personalidade, o tema ganhou rumos próprios, novos, originais, embora (obviamente) menos brilhantes do que os do seu inspirador.

A vida é um labirinto, onde todos estamos perdidos, em busca de uma saída, tendo em nosso encalço, nos nossos calcanhares, uma fera sanguinária e insensível, que nos persegue de maneira implacável, no intento de nos matar. Sabemos que um dia seremos alcançados por ela, embora não possamos atinar em que ponto desse emaranhado de caminhos e quando. Andamos em círculos e, no final de cada passagem, nos deparamos, invariavelmente, com nova parede e novos rumos que podem ou não nos conduzir à saída. Porém, no final das contas, eles acabam nos conduzindo, somente, a idênticos resultados. Ou seja, a novas paredes.

Enquanto a maioria dos romancistas, contistas e poetas limita-se a descrever a vida, Jorge Luís Borges mostrou-se mais ousado e foi além: “recriou-a”. E fez isso com tamanha verossimilhança, que o que inventou se confunde com o que, de fato, sempre existiu. Por isso, enquanto eu viver, ele também viverá em meu íntimo, em minhas elucubrações cotidianas mais secretas e em minha busca ingente e desesperada pela “saída do intrincado labirinto da vida”. Vaidades à parte...

3.10.06

A poesia da ciência

O cientista e o poeta lançam mão do mesmo tipo de linguagem, a dos signos e convenções, em suas respectivas atividades: a metáfora. Um, age assim para tentar descrever o indescritível, ou seja, os dois extremos do infinito, tanto o micro quanto o macro. O outro, vale-se desse recurso para tornar concretos os sentimentos e emoções (obviamente abstratos) que movem este animal incrível, o único ser racional conhecido – embora seja possível e até provável que na imensidão do universo, com quatrilhões ou mais de mundos, em uma infinidade de galáxias e sistemas estelares, haja outros, até mais inteligentes e perfeitos. Talvez jamais venhamos a saber se eles existem ou não.

Para ser justo, devo ressaltar que essa constatação, sobre a similaridade das linguagens, não é minha. Vários cientistas de renome admitem isso. E é, até, uma questão de lógica. Os cinco sentidos do bicho homem são extremamente frágeis para penetrar no âmago da matéria ou para alcançar distâncias absurdamente grandes e vislumbrar o que há nos limites do universo. Contudo, com o instrumento da razão, e com a metáfora da matemática (ou da palavra, no caso do poeta) consegue chegar a leis e princípios – demonstráveis, de maneira lógica, posto que apenas de forma empírica – que regem todo esse fabuloso conjunto, cujos limites jamais conseguirá saber onde estão.

O eminente físico nuclear Niels Bohr observou a esse propósito: “Quando chegamos aos átomos, a linguagem somente pode ser usada como na poesia. O poeta também não está mais preocupado em descrever fatos do que em criar imagens”. Ciência e poesia, portanto, são as duas faces de uma mesma moeda. Ou seja, ambas refletem a ânsia, a necessidade, a obsessão humana de conhecer (e de entender e explicar) tudo o que nos rodeia, inclusive (e principalmente) o próprio homem.

Uma das pessoas que têm tratado com maior didatismo e lucidez essa questão da linguagem dessas duas atividades nobres do homo-sapiens é K. C. Cole (pesquisei durante dias na internet para tentar descobrir o significado das duas iniciais do seu nome, em vão). Trata-se de uma jornalista e escritora, especializada em jornalismo científico, que prestou, durante anos, relevantes serviços em sua especialidade ao jornal “Los Angeles Times” e que, atualmente, leciona essa disciplina, aos futuros comunicadores, na University of Southern Califórnia.

Num dos seus múltiplos ensaios a que tive acesso (e que consegui traduzir, posto que de forma canhestra), ela constata: “A ciência, com efeito, envolve, na maior parte dos casos, olhar para coisas que nunca poderemos ver. Não apenas quarks (subpartículas atômicas) e quasares (formações quase-estelares), mas também ‘ondas’ de luz e ‘partículas’ carregadas, ‘campos magnéticos’ e ‘forças gravitacionais, saltos quânticos’ e ‘órbitas’ de elétrons”.

E não somente na física existe essa impossibilidade, mas em praticamente todos os ramos da ciência. Nenhum homem jamais viu, por exemplo, um dinossauro, das milhares de espécies desses gigantescos sáurios que povoaram a Terra. Os paleontólogos, no entanto, não somente “sabem” tudo a seu respeito (será que sabem mesmo?), como conseguem situar a época que teriam vivido (que remonta há vários milhões de anos no passado), descrever os seus hábitos e reconstruir seus corpos, tendo em mãos nada mais do que um punhado de ossos. É a fértil imaginação humana a serviço da compreensão (ou da tentativa dela).

K. C. Cole – que tem forte ligação com o Brasil, pois passou a infância no Rio de Janeiro – autora de livros notáveis em seu gênero, como “A mente considerando a matéria: conversas com o cosmos” e “Universo e a xícara de chá”, entre outros (cuja leitura recomendo, notadamente para jornalistas), diz mais: “De fato, nenhum destes fenômenos (os que citei acima) é, literalmente, o que dizemos ser. As ondas de luz não ondulam através do espaço vazio da mesma forma que as ondas de água se propagam num lago calmo; um campo não é como um prado, mas antes uma descrição matemática da intensidade e do sentido de uma força; um átomo não salta, literalmente, de um estado quântico para outro; os elétrons não viajam, literalmente, em torno do núcleo atômico em círculos, tal como o amor não produz, literalmente, dor de cabeça”.

Como se vê, há profunda poesia na ciência e vice-versa. Usando uma expressão popular, podemos afirmar que ambas “são farinhas do mesmo saco”, frutos da fertilíssima imaginação humana. Só o homem consegue produzir o que há de mais veloz em todo o universo, que supera, em muito, a velocidade da luz: o pensamento. Basta pensarmos, por exemplo, em Alfa Centauro e imediatamente estaremos lá. Ou em algum minúsculo planeta de alguma remotíssima estrela, de uma perdida galáxia dos confins do universo, tão distante que o seu brilho chegará à Terra somente daqui uns bilhões de anos após esta não existir mais, para que nos sintamos pisando o seu solo. Por tudo isso, considero a poesia e a ciência gêmeas siamesas... Estarei forçando a barra? Provavelmente. Mas também tenho o direito e a prerrogativa de dar asas à minha imaginação!